Há um momento silencioso em que uma sociedade começa a falhar. Não é quando falta luxo. É quando uma pessoa trabalha, cumpre, poupa, faz contas — e mesmo assim percebe que uma casa deixou de estar ao alcance da sua vida.
A habitação voltou a ser, talvez mais do que qualquer outro tema, o retrato mais claro das desigualdades portuguesas. Por todo o País, comprar casa tornou-se para muitos uma miragem; arrendar, uma ansiedade mensal; sair de casa dos pais, um projeto adiado; regressar à terra, uma impossibilidade prática.
Nos Açores, este problema tem uma dureza própria. A insularidade já encarece materiais, reduz oferta e limita escolhas. Mas quando a casa sobe mais depressa do que os salários, o problema deixa de ser apenas económico. Passa a ser social, familiar, até emocional. Porque uma casa não é só quatro paredes. É a possibilidade de ficar. De criar raízes. De construir futuro sem pedir licença ao mercado.
É verdade que há investimento público anunciado, apoios, programas e promessas. São necessários. Mas a pergunta essencial parece-me ser outra: estamos a construir casas para pessoas viverem, ou apenas a gerir indicadores para dizer que alguma coisa está a ser feita?
Uma política de habitação digna não pode limitar-se a ajudar alguns a entrar num mercado que continua doente. Tem de aumentar oferta pública, reabilitar o que está vazio, proteger quem arrenda, disciplinar abusos e reconhecer que as ilhas precisam de soluções próprias.
Quando a habitação falha, falha tudo à volta: a natalidade, a fixação dos jovens, a coesão das comunidades, a confiança no futuro.
E talvez seja esta a frase que mais me inquieta: um país onde trabalhar já não chega para morar é um país que começou a expulsar os seus próprios filhos.
(Crónica escrita para Rádio)